Eu ando cansada

      Os dias começam como sempre começaram, mas o sussurro do vento da janela fechada insiste em me lembrar que as coisas mudaram. Os anos passam como pingos de uma chuva de verão, um por um e depois todos de uma vez, numa bagunça torrencial e ansiosa que grita silenciosamente para os céus até voltar a diminuir e abraçar o calor disperso e gigantesco. 
    Minha infância teve os sorrisos suados e as lágrimas de leite que marcam a vida suburbana padrão, mas os anos passam e o aperto crescente no meu peito se expande como um praga medieval, então, quando menos espero, ele já tomou meu corpo e não me resta muito mais do que gritar para as paredes num resquício de força ofegante e descontínuo. 
   Um último suspiro e um abraço, os dias voltam a esquentar e eu volto a existir, feliz, aberta, porém ainda restrita a paredes de segredos e desejos perdidos no desespero do passado. 
 Não sou mais uma colegial ansiosa, muito menos uma criança apaixonada, mas com a pouca claridade e perspectiva que o tempo me deu, vieram também o conhecimento dos meus medos e tendências limitadoras. Muito do que sou publicamente foi cuidadosamente moldado para se encaixar na paisagem do cotidiano, limitada pelas paredes que eu mesma construí, pouco paciente, severa e existencialmente corrupta. 
 Vi-me enganando a mim mesma, retorcendo as palavras da existência para tira-lhes o que ainda tinham de doce, seduzida pela simplicidade do usual, mas ao andar sonhando pelos dias de chuva me deixei molhar pelas insistentes gotas da minha mente em tormenta. Senti a verdade roendo meu guarda-chuva e, finalmente, vi o universo inquieto ao meu redor e me deixei levar num fluxo recorrente de dúvidas que meu passado nunca trouxe. 
 Não tenho mais grande parte da clareza que achei que tinha, porém sei que não estou sozinha e que o sol inevitavelmente chegará.

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