Eu ando cansada
Os dias começam como sempre começaram, mas o sussurro do vento da janela fechada insiste em me lembrar que as coisas mudaram. Os anos passam como pingos de uma chuva de verão, um por um e depois todos de uma vez, numa bagunça torrencial e ansiosa que grita silenciosamente para os céus até voltar a diminuir e abraçar o calor disperso e gigantesco. Minha infância teve os sorrisos suados e as lágrimas de leite que marcam a vida suburbana padrão, mas os anos passam e o aperto crescente no meu peito se expande como um praga medieval, então, quando menos espero, ele já tomou meu corpo e não me resta muito mais do que gritar para as paredes num resquício de força ofegante e descontínuo. Um último suspiro e um abraço, os dias voltam a esquentar e eu volto a existir, feliz, aberta, porém ainda restrita a paredes de segredos e desejos perdidos no desespero do passado. Não sou mais uma colegial ansiosa, muito menos uma ...